Miles Davis tinha razão quando disse: “Não toque o que esta lá, toque o que não esta lá.” Analiso dezenas de audios e videos de alunos e claro que também passo minha semana ouvindo o som de grandes músicos e também de colegas. Hoje, diante de algumas audições me veio a lembrança desta frase que citei do Miles. As vezes o músico esta tocando tudo certo, as notas certas no lugar certo e não existe problema aparente, sequer existe algum conselho que você possa deixar para o aluno ou colega que pede um “toque”.. Acredito que aí entra o que Miles quiser dizer, que é tocar algo que irá surpreender, que vai além do que é certo e do que as pessoas esperam ouvir. É uma curva subjetiva e difícil de ser replicada. É uma maldade, uma sujeira, é algo que vai além do trivial e isso não tem a ver com dom, tem a ver com passar por todo esse processo de assimilação, de soar previsível e de persistir e encontrar este lugar. No documentário do John Coltrane dá para ouvi-lo tocando nos seus 20 anos de idade, um Coltrane tocando “nada de mais” “tocando o que esta lá”. O legado do Coltrane é história, mas imagina se ele tivesse parado antes de descobrir o que era “toque o que não está lá”? McCoy Tyner já dizia: “Para alcançar a liberdade, antes você precisa passar pelo processo da disciplina.”

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